“Ah, que tristeza a fuga sub-reptícia do repiquete,
foi depressa casar com sereia do mar!”
Leandro Tocantins
Em tempo de repiquetes
pego-me a divagar com as águas que me viram crescer,
que me banharam de sonhos, e uma vez me disseram
por meio de uma espuma tão realista quanto bela:
- Neste mundo, com o sofrimento terás muito que aprender,
pois amar é senão, sofrer.
(e se desfez juntando-se ao curso das águas tão turvas,
que refletia a noite que havia em meus olhos!)
Ah, essas águas para quem contei tantos segredos
como um penitente faz a seu confessor,
e a quem tantos outros me revelaram também.
Das águas do meu tempo de menino, tornei-me pastor,
e guardar rebanhos caudalosos é o que tenho feito de lá pra cá,
vez por outra, me escapam algumas com o danado do repiquete.
(e se vão, sem saber que não poderão mais me ver,
mas vão rindo, rindo...)
Aquelas águas me diziam coisas inacreditáveis,
desde os vastos mares de suas irmãs distantes até aquelas
das grotas, que a elas se juntavam rumo aos mares infindáveis.
Tantas vezes as vi chorar e a elas me juntava,
naquele momento nos tornávamos um: elas choravam de grandeza,
eu de pequenez!
(muitos enlouquecem quando ouvem as águas chorarem, é um som
tão doce, semelhante àquelas que a Ulisses encantaram)
Muitas águas conheci, águas só entendem a linguagem da vida,
de uma feita dessas , me confessou uma que sonhara muito em conhecer o mar,
que o mar era tão belo, tão infinito... seu sonho era estar no mar, ser mar!
mas sabia que não o alcançaria, pois muitos a recolheriam, solos teria que regar,
a sede de outros saciaria e talvez teria ainda que subir até as nuvens, para em
lágrimas de alegria cair e assim, permitir a relva do campo florir.
(nunca me esqueci das águas daquela fonte, foi uma das primeiras
lições que delas recebi: partir!)
As águas são sábias! Quando curumim
elas me ensinaram a coragem e a mansidão.
Não há águas revoltas. Há acidentes em seu caminho,
há fenômenos que lhes distorcem o que são.
As águas são, em essência, serenas e mansas
à semelhança da alma que nos habita!
(descobri que há muitas semelhanças entre as águas e a nossa alma,
entre o que nos agita, e aquilo que realmente somos)
Quando do primeiro repiquete, as águas descem em coro,
espalhando pelos quatro cantos da floresta o canto de renovação,
e tudo lava e tudo leva e tudo louva
vem decidida com suas forças, transformando cores e paisagens.
O homem de longe a contempla, abismado e fascinado
ante aquelas águas, metáfora de sua vida.
(as águas de repiquete são, na verdade, poemas que as chuvas desfizeram,
por isso elas descem em forma de canção...)
Uma vez lá nos barrancos da minha infância, numa tarde em que chovia
pétalas de luz sobre as águas, numa dicotomia de saudade e encanto,
uma pequena folha que vinha dançando sobre aquele mar de águas douradas,
ante meu rosto desconcertado pelo brilho da tenra idade , balbuciou estas palavras:
- Há três tipos de homens que entendem as águas: os loucos, os poetas e os santos!
Daí em diante, comecei apascentar águas num curral sem cercas!
(a vocação das águas é serem livres, por isso, os repiquetes quando vêm,
vão enchendo a mata de liberdade, todos participam da festa: igapós, lagos, grotas...)
Cresci vendo as águas passarem! A bem da verdade, eu tinha um rio só meu,
meu e de todos os que sonhavam. Esse rio, dizia minha mãe, foi presente
que teu pai deixou antes de partir a lugar algum, foi num final de tarde quando
as águas passaram te acenando, e ele viu de teus olhos poemas caírem
como chuva, e escorrerem rumo aquelas águas crepusculadas
de angústia e felicidade, de dor e amor, em busca de sentido e eternidade.
(as águas que passavam em frente a minha casa, vinham de muito longe,
sofrendo como em todo caminhar, no entanto, só passavam cantando!)
Um dia, num tronco irmanado com o rio, me encontrava em colóquio com as águas,
quando respingou em mim uma gota, fruto de um rebojo, que se pôs logo a dizer:
- Sede como elas, as águas, mesmo que algumas sejam feitas prisioneiras,
outras estarão em perene caminhar. Sede fiel ao que te lanças a alcançar,
assim como elas são na busca pelo mar!
E evaporou-se num êxtase ao sentir a mão do sol a acariciá-la.
(as gotas d’águas, por menor que sejam não são insignificantes, me disse uma
certa vez, juntas formam uma poça, um lago, um mar...)
Outro dia tive um sonho, desses sonhos de menino besta da vida.
Estava novamente diante das águas que me viram ser,
do alto de um barranco, eis que avistava um repiquete cabeça d’água,
como num batalhão, numa só cadência, marchando em minha direção,
vinha inundando tudo, meu Deus!, eu estava às margens do rio,
as águas será que me levariam? Nesse momento acordei.
(desperto, envolto numa aurora de nostalgia, lembrei-me do que me dissera
certa vez um repiquete, que jamais a mesma água voltava a sua nascente...)
Ah! aquelas águas onde estarão, não sei
águas de repiquete passam rápidas como a gente,
quem apenas olha para atrás, perde de vista as da frente.
Cresci com a força das águas, a exemplo dos repiquetes,
embora passem em fuga sub-reptícia, homem e terra fecundam
cumprindo a promessa do Criador de um dia: novo mundo...
(não chores, acalentou-me uma lágrima,
foi Deus quem te deu a vocação de ser como as águas...)
Autor: Izaquiel Melo Evaristo (Isaac Melo)